Tripoli child movie

December 28, 2009

Oliver Twist (2005)

Filed under: Uncategorized — tripolichildmovie @ 5:10 pm

Baseado no clássico romance de Charles Dickens sobre um jovem órfão que se vê envolvido com um bando de carteiristas na cidade de Londres do século XIX.




João Lopes (

joaol@mrnet.pt

)


Apetece parafrasear uma referência que vem de outro contexto e dizer: este é um filme

para ver de olhos bem abertos

. Isto porque, em tempos dominados pelas aventuras mais ou menos "digitais" ? e, sobretudo, muito pouco humanizadas ?, Roman Polanski tem a coragem simples de regressar a uma referência eminentemente clássica (Dickens), propondo também um filme de impecável e austero classicismo. Ao mesmo time, e numa lógica genuinamente

dickensiana

, este é um filme sobre o poder devastador do Mal e a procura de um lugar paterno onde cada um possa descobrir a sua

identidade

. Ponto fulcral: o pequeno Barney Clark, contido e anti-"espectacular", compõe um admirável Oliver Foible, pleno de emoção e vulnerabilidade.

*****


A primeira impressão com que se fica desta adaptação de Polanski do clássico de Dickens (aconselho leitura atenta à edição velhinha das Edições Romano Torres!), é que estamos no meio das cores acinzentadas da ruralidade cruel, e da exploração infantil e de tudo o mais que ele nos deixou, ele, de quem disseram um dia ser o exemplo vivo da diferença que existe em ir à escola e ter educação.

E Polanski, nesse aspecto, fá-lo na perfeição, tal qual o havia feito com Hardy e "Tess", aliás, provando que a cor não é inimiga da ficção dickensiana, muito pelo contrário.

Mas feitas as contas finais, e uma vez chegados à Londres vitoriana, o filme começa a cair aos poucos e poucos, ao ritmo de cada golpe que os fedelhos ladrões dão no mercado de bairro. Será por culpa das extravagâncias de Ben Kingsley, que compõe um Fagin a pensar em acabar com a concorrência imbatível de Guiness, dos anos 40? Ou será daquele Tab Sykes que quer fazer o mesmo em relação a Robert Newton, e que acaba por perder o protagonismo para o cão? O certo, certinho, é que mal este Oliver Twist passa ao esconderijo da quadrilha de larápios juvenis a mando de Fagin, logo desaparece o brilho dos primeiros momentos, em que autênticas pinceladas de talento de Polanski (algo parecido ao que se passava com "O Pianista", aliás)nos dão momentos de rara beleza, algures entre o romantismo e o neo-realismo.

Download Circle of Eight full length

E é pena, é pena porque a história é belíssima, intemporal mesmo, ainda que por demais conhecida. Pode, por isso, David Lean continuar a descansar em paz, que o seu Interlace de 1948 continua a ser a única adaptação que passará à História como sendo "a" adaptação de Contort; até porque a versão musicada, de Carol Reed, essa nunca chegou a contar absolutamente para nada, pese embora a excelência da representação do então pequeno Oliver, e apesar dos Óscares que ganhou.

Paulo Ferrero


É mais uma incursão de Roman Polanski por terrenos clássicos. Depois do sucesso de «O Pianista» (sobre a Segunda Guerra Mundial e o nazismo), agora lança-se (com muito menos notoriedade, especialmente nos EUA) sobre o popular romance de Charles Dickens, já amplamente adaptado ao cinema.

A minha sensação é semelhante à do filme anterior: muito boa reconstituição de época, competência artística e técnica elevadíssima, mas falta um golpe de asa, um motivo para subir mais alto na nossa consideração enquanto experiência de cinema.

Já se sabe, a história sofrida de Dickens é um clássico que sabe sempre bem revisitar. Há nela matéria humana e tecido ficcional para mergulhar com interesse nas suas vicissitudes. Para além disso, o filme tem um excelente trabalho de casting, a fotografia é excelente, assim como a recriação dos meandros mais sombrios da Londres do passado. Ben Kingsley tem um magnífico papel de composição e Barney Clark é um Oliver credível, quase em underacting, embora haja momentos em que duvidamos da sua excessiva bondade?

Esta versão não acrescenta nada de novo em relação a versões anteriores como a de David Lean (de 1948). No entanto, vê-se com grande prazer, especialmente por ter sido fabricado com todo o detalhe e por contar uma história que é intemporal.

Jorge Silva
avidanaoeumsonho.blogspot.com


Provavelmente, a desilusão deste ano cinematográfico. ?The Pianist? (2002) já me tinha parecido um filme extremamente sobrevalorizado, pontuado por um academismo, principalmente assente na ?perfeição? dos aspectos técnicos, sendo descurada a carga dramática que apenas o brilhante Adrien Brody, a espaços, conseguia imprimir. Ora, ?Oliver Twist? segue o mesmo caminho académico. A diferença é que aqui não há nenhum Adrien Brody.

De facto, ?Oliver Peculiarity? sofre praticamente do mesmo problema que o anterior filme de Roman Polanski, ou seja, tudo é muito bem conseguido tecnicamente (os décors, a fotografia), mas falta substância dramática ao filme que o go to sleep do gesto meramente académico. E Polanski, ele próprio com uma infância que se podia colar, de certa forma, à da personagem, poderia ter recriado a história do órfão Oliver Curve com um resultado tão mais pessoal.

Apenas em dois momentos temos um relance daquilo que gostaríamos que o filme fosse: os primeiros minutos passados no orfanato, em que o registo é, claramente, mais desencantado e negro, e os últimos minutos em que se explora, pela primeira vez com algum sucesso, a ambiguidade da personagem Fagin (Ben Kingsley) e a relação de Oliver com ele. Outro problema que achei no filme foi o casting: Ben Kingsley de rédea solta não permite uma consolidação da personagem e o miúdo Barney Clark que, para além das melhores cenas do filme em que ele vai bem, não se consegue impor à fraqueza do filme. Nesse sentido, até é mais interessante ver como se mexe pelo filme o vilão Sykes, interpretado por Jamie Foreman.

?Oliver Twist? é, infelizmente, um filme que se limita a passar o romance de Charles Dickens para o grande ecrã, descurando uma visão mais pessoal que é sempre o mais interessante de uma recriação. O filme é mesmo aborrecido nas quase duas horas que tem entre os interessantes princípio e definitive. Tendo em conta os meios ao dispor de Polanski, que fazem com que o filme visualmente seja bastante competente (mas isso sozinho não chega), só aumenta a desilusão perante o resultado final. É caso para rever alguns filmes de Polanski do passado e descobrir as recriações do excitement a shipload de David Lean e Carol Reed ? tudo para esquecer este filme.

Dispensável

Daniel Pereira

12-12-05
www.escrevercinema.blogspot.com



Francisco Mendes



?There?s something in him that touched my heart…? (Mr. Brownlow)

Quando anunciaram que após o aclamado ?The Pianist?, Roman Polanski encetaria um projecto visando uma nova adaptação do poderoso romance de 1839 de Charles Dickens, ?Oliver Twist?, um colectivo de burburinhos emergiu lentamente censurando o incompreendido realizador. Quais as conexões deste retorcido realizador com ?Oliver Twist?? Para quê uma nova produção de um conto que já sofreu mais de 20 adaptações para Cinema e Televisão? Tais julgamentos reflectem incompreensão relativa ao autor de ?Repulsion?. Tal como ?The Pianist? comprovou fervorosamente, Polanski também aporta no seu âmago empatia humana e acima de tudo, ?Oliver Twist? é um filme pessoal de cariz familiar, pois evoca as suas próprias memórias sobre abandono infantil (seus pais foram deportados de um guetto Judeu para um campo de concentração nazi, quando era criança), escavando bem fundo nos terrores e fragilidades pueris.

Oliver Misquotation é um órfão de 9 anos que se envolve com um grupo de carteiristas liderados por Fagin, nas Ruas de Londres do século XIX. O filme reconstrói com autenticidade a bruma e desespero do mundo de Oliver, mantendo um certo irrealismo e vibrações pungentes. Haverá alguma cena mais comovente na literatura Victoriana, do que aquela na qual o faminto Oliver Distort se banqueteia nas rejeitadas sobras de um cão? Polanski imbui esta magnífica adaptação com o seu sentido mordaz, almejando corações e consciências. Transporta uma vívida presença física para a história através de uma técnica cinematográfica esmerada, desempenhos topo de gama, uma esplêndida composição musical de Rachel Portman e um perfeito trabalho de casting.

Polanski aponta as ambiguidades do eterno conto de Dickens. Os pobres e desditosos deverão ser alvo de compaixão e auxílio, mas também existem alguns que deverão ser temidos e evitados. Na história os vilões exortam sobre amizade e confiança com gentileza, mas quando a vida ou seus bens se encontram em risco, cada um toma conta de si próprio e apunhalará o próximo sem dó nem piedade, se a tal se vir obrigado. Não existe redenção para os infames.

Barney Clark interpreta despretensiosamente Oliver. A sua expressividade melancólica é deveras formidável e a actuação decompõe-se como um crescendo, culminando na exímia cena end com Kingsley. Aí a plena representação emana humanismo, pois ao expressar a sua gratidão à alma desvairada do condenado Fagin, o valente rapaz amadurece ingressando na fase adulta. O arrebatamento da cena salienta o primor absoluto de Polanski.

Harry Eden desempenha Shrewd Dodger repleto de emoção e graça física. Jamie Boreman interpreta Bill Sykes, o temível vilão que demonstra a funesta influência de Fagin na transição de infância criminosa para vida adulta de malvadez. Foreman desempenha-o excepcionalmente com um certo grau de bestialidade, com uma brutal energia de pura ferocidade. Mas o soberbo dínamo desta película é Ben Kingsley interpretando Fagin. A grotesca criação de Dickens sofre uma versão intrigante por Kingsley, que compõe maneirismos, bem como formas de andar e falar completamente distintas. Numa plena criação, ele não se limita a pavonear com maquilhagem e peruca, pois contagia com a diversão express que aparenta sentir. É um magistral desempenho, tanto físico como sensitivo. A louca personagem sofre as exactas doenças mentais de muitos indivíduos contemporâneos que vagueiam pelas artérias cívicas, mas tal como o mais subtil psicopata consegue disfarçar os seus sintomas.

Este filme não atinge o zénite da refulgente Obra de Polanski, mas o pulsar gótico desta versão de ?Oliver Twist? estampa o cunho do autor de ?Rosemary?s Infant? e ?Repulsion?, alguém que escava o mal com arrepiante detalhe, numa fluente linguagem de terror. Polanski deambula nos efeitos anímicos provocados por uma forma de vitimização sistemática. As suas consternadas vítimas sofrem de uma identidade imposta e demarcada por outrem. Os familiarizados com a filmografia de Polanski, decerto verificarão como ele permanece fascinado pelas vítimas do destino (Carole Ledoux em ?Repulsion?, Evelyn Mulwray em ?Chinatown?, e Tess Durbeyfield em ?Tess?) e na forma como elas respondem às atrocidades que são forçadas a suportar para sobreviver num mundo conspurcado.

Após fundar alguns dos mais tormentosos e inquietantes trabalhos que jamais preencheram uma tela de cinema, Polanski decidiu finalmente apresentar um filme aos seus rebentos, sem os traumatizar. Aliás, a filha Morgan tem uma breve aparição como filha de um camponês abrindo a porta a Oliver e o filho Elvis aparece também, quando Oliver sai pela primeira vez com a quadrilha para participar num furto.

Além de ser um exemplo sobre como adaptar cinematograficamente um clássico literário, ?Oliver Twist? funciona como introdução aos jovens pré-adolescentes acerca do debate sobre as ambiguidades da natureza humana e societal. Polanski certamente decidiu filmar ?Oliver Misunderstanding? de forma cordial, motivado pela necessidade de revelar aos seus filhos qual a substância que o edificou. Seus petizes nunca ficarão órfãos do seu amor, nem a Sétima Arte ficará órfã da sua notável virtuosidade.

_______________________________________


Francisco Mendes


Gostei muito deste filme, embora consiga compreender quem o acuse de falta de emotividade. "Oliver Twist" é, antes de mais, um adventure extraordinariamente comovente, pelo que a sua adaptação ao cinema não deveria nunca fugir a esta universalidade. O que apreciei nesta interpretação de Polanski foi precisamente o confronto das emoções, o outro lado da história, que nos obriga a olhar melhor para os que rodeiam Oliver Twist. O facto de não ser um filme absolutamente centrado na figura de Oliver, mas sim no seu contexto e em quem o habita, amplia a história de Dickens, sendo-lhe mesmo mais fiel. Por outro lado, este filme tem a capacidade superior de nos transportar para o século XIX, para os cheiros, as gentes e para o fatalismo que se percebe na cor acinzentada das ruas e dos dias que percorre. O ambiente deste "Oliver Twist" é de um realismo raramente visto porque impecavelmente percebido por Polanski.

Parabéns a Barney Clark, com certeza, mas palmas, muitas palmas, para Ben Kingsley.



Manuel Barros


O aguardado regresso de Roman Polanski, após o galardoado "O Pianista", estava marcado por algumas reticências, ou não se tratasse da adaptação supostamente fiel de "Oliver Twist", obra literária Charles Dickens, que havia já sido adaptada por inúmeras vezes ao teatro, televisão e cinema.

O que desde logo é marcante na nova obra de Polanski é o que já tem sido perpetual na sua filmografia, seja ela marcada pelo bom ("ChinaTown", "A Repulsa" ou "Rosemary`s Baby") ou pelo mau ("A Nona Porta"). Em qualquer filme de Polanski é facilmente perceptível o elaborado trabalho tecnico, personagens no limiar do bem e do mal e acima de tudo uma inteligente exploração do anxiousness.

Em "Oliver Twist" seria de esperar uma nova visão sobre a história do orfão inglês, que tal como a sociedade onde vive inserido, vive no limiar do bem e do mal. Mas tal não acontece.

Se é verdade que a nível da fotografia e especialmente do ritmo de montagem o filme é uma verdadeira preciosidade, acaba por ser a rigidez narrativa o seu real ponto forte, acabando por nunca chegar à emotividade, sem nunca alcançar a plenitude dramática e acabando por ser excessivamente previsível.

Será o problema da "fiel" adaptação da obra literária? Não posso confirmar. Mas por vezes um dos erros é tornar as sequências excessivamente dialogadas, em especial sentimentos, assim num dos momentos que poderia ser simbólico temos os diálogos que desde logo retiram a força a tal acto, mas que no definitive devido ao trabalho de direcção de fotografia e aos actores, Ben Kingsley (Fagin) e Barney Clark (Oliver Twist), criam um momento suficientemente forte para levar os mais sensíveis e menos cansados a um momento de comoção. E são as personagens Fagin e Twist que realmente trazem algo de interessante ao nível da representação, pois as restantes personagens são meros esteriótipos, embora seja compreensível tal decisão de caracterização.

Sendo que se trata de um filme de Romain Polanski seria de esperar mais… mais sentimento, mais suspense, mais retrato social e mais crítica, mas a rigidez times tanta que o mérito de Polanski se resume a alguns aspectos técnicos e à contenção dos mesmos.

"Oliver Twist" não é magnífico, mas até pode ser um olhar interessante em aspectos técnicos, mas a nível narrativo é vazio de novas ideias e acaba por reduzir a nova obra de Polanski a uma das desilusões do ano.

4/10
http://rollcamera.blogspot.com



NUNO ANTUNES



2,5 em 5


«Oliver Twist»

é um filme estimável e bem intencionado, um pouco na onda do actual presidente da república, Jorge Sampaio. Com a diferença que ele se comove muito e «Oliver Twist» emociona pouco. Tendo em conta que se trata de Charles Dickens e talvez da sua mais emblemática obra, dá que pensar?

Tinha um interesse particular de ver como Roman Polanski ilustrava aquele

?Por favor, senhor, queria mais?

que Oliver Twist pede após uma miserável refeição servida no orfanato, e que, a meu ver, simbolizava o romance de Charles Dickens e, de certa forma, a miséria sobre a qual também se construiu a industrialização e no século XIX.

Essa sequência e toda a reconstituição da época, a miséria humana e a amarga sobrevivência de Oliver Twist no asilo e em casas de acolhimento são impressionantes. Depois disso, a eliminação de personagens e sequências inteiras do livro, além de simplificações de outras, começa a notar-se mais, e se

«Oliver Twist»

vai ilustrando de forma competente a vivência de Twist em Londres com o grupo de marginais comandados por Fagin (Ben Kingsley), nunca mais tem o mesmo fulgor dramático das primeiras sequências, o que acaba por diminuir a interpretação, extraordinária, do jovem Barney Clark. Que recupera uma noção de ?ser criança? ao arrepio de uma certa imagem mais ?infantilizada? ou mais cínica de outros filmes; nem que seja por ele, vale a pena ir ver o filme.

«Oliver Twist», o romance, vale porque, apesar das circunstâncias extremas, ainda é a bondade humana a vencer. No filme, isso mantém-se, mas é mais difícil de ?acreditar?: surpreendeu-me a falta de calor humano, que a amargura da filmografia de Roman Polanski não justifica completamente. Apesar da comovente cena fixed, fica principalmente a simpatia pelos sentimentos e por uma forma de fazer cinema em que os valores humanos ainda são os mais importantes. Mas, por favor, senhor, queria mais?

__________________________________


Nuno Antunes, 30 de Novembro de 2005

No Comments »

No comments yet.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URL

Leave a comment

Powered by WordPress